terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

OS OSSOS DO BARÃO SALVATORE DRAMMIS - parte 1



Abaixo, em marrom, a transcrição do texto recebido de Scandale (provavelmente por Mário Capozzi), em francês, com um pouco da história da família Drammis. Este texto também se encontra na Wikipedia. O original foi disponibilizado na postagem anterior. Acervo pessoal.

"Família dos barões Drammis - (da Itália) - Chefe atual - Barão Salvatore Drammis, oficial de SS Mauricio e Lázaro - condecorado com a medalha do Mérito Militar - Membro da Sociedade Economica de Catanzaro."
 "A família Drammis descende do Coronel Salvatore Drammis, que foi para a Itália quando da entrada dos espanhóis nesse país. Ele aí se estabeleceu e adquiriu as terras de Fota bem como o baronato que cabia as mesmas." 
"Todos os descendentes de Salvatore Drammis se distinguiram pelas suas virtudes sociais, sua inteligência e seu patriotismo." 
Os 3 primeiros parágrafos do texto são parte de uma pequena introdução. Depois o texto apresenta, em apenas um parágrafo, Nicola Drammis (1779-1830),  e o restante se estende principalmente sobre  Salvatore Drammis (1806-1884), pai de Antônio Drammis.

Quando fala  sobre o Chefe atual,  o texto esclarece que foi escrito no tempo do Barão Salvatore Drammis, pai de Antônio, Barão entre entre os anos 1830 e 1884. Segundo o pesquisador Luigi Santoro, o texto foi escrito em 1864.

O Coronel Salvatore Drammis, a que se refere o segundo parágrafo do texto, provavelmente não é o Salvatore pai de Antônio, já que este nasceu, viveu e faleceu na Itália, veja na árvore acima.

Entre 1503 e 1707, a Calábria esteve sob domínio espanhol. Entre 1707 e 1734
sob domínio austríaco. Entre 1734 e 1860 esteve sob domínio dos Bourbon, com domínio francês entre 1806-1816. Daqui. O atual rei da Espanha, Felipe VI, é o chefe da Casa de Bourbon de Espanha.

Outro ponto que não pode ser esquecido sobre a "entrada dos espanhóis nesse país" é a diáspora de judeus sefarditas (espanhóis) ocorrida entre os sécs. XV e XVII para a península italiana, leia aqui.


A última frase deste trecho, "Ele aí se estabeleceu e adquiriu as terras de Fota bem como o baronato que cabia as mesmas", nos sugere algumas perguntas, que tentaremos responder: Que terras seriam essas, quando teriam comprado, que atividade exerciam antes de serem latifundiários e como teriam comprado essas terras.



A família Drammis teria comprado terras em Scandale: Fota e San Leone-Galloppa. Mas que terras seriam essas ? 

Fota e San Leone são terras que, atualmente, pertencem ao municipio de Scandale.
"De acordo com documentos obtidos por vários historiadores, Fota estava na posse do Barão Nicholas Pietro Cutro ... em 1772. Mais tarde ele vendeu as terras para Raffaelle del Fiore em 1798 que teve posse definitiva em 1801.  San Leone ... em 1743, era posse do Príncipe Pier Mathia Gruther." Daqui.
No início do séc. XIII as terras de San Leone pertenciam ao feudo da família Pristera, no final do séc. XIII, juntamente com as terras de Scandale, era parte do feudo dos irmãos Berlingerio e Giordano Sanfelice.

Nessas terras, levantou-se, em data não conhecida, uma pequena igreja, Diocese de San Leone, anteriormente conhecida como Leonia. Ela foi fundada pelos bizantinos e elevada a bispado pelo patriarca de Constantinopla. Da igreja de San Leone desapareceram até as  ruínas.

Em San Leone, próximo à antiga estrada que ligava Scandale e Crotone, o Barão Nicola Drammis construiu, na primeira  metade do séc. XIX, um palazzo, e à direita do portão, no muro, colocou uma pequena placa, que dizia:


"Fermati e versa lacrime
Leonia que fu
attento, attento, mirala
ah! la ravvisi tu ?
Si,si,Nicola Drammis
l'ombra ne rinnovò"


Acima a entrada da Fazenda Leonia na colina Galloppa perto de Scandale, construída pelo Barão Nicola Drammis sobre as ruínas da Diocese San Leone, na primeira metade do séc. XIX. Foto daqui. Mais sobre a Diocese San Leone aqui e aqui.

Em data não conhecida, a família Drammis, empobrecida, passou as terras de Leone-Galloppa para o Barão Zurlo de Crotone, a quem pertencem ainda hoje, leia aqui

Quando o Barão comprou essas terras ?

Desde os últimos anos do séc XVIII, Napoleão Bonaparte tentava aumentar seus domínios na Europa.  Em 1806, após já ter tomado o norte da Itália, sua Armée marchou sobre o Reino de Nápoles. Quer saber mais ? Clique aqui.
"Em 15 de fevereiro (de 1806), de fato, Joseph Bonaparte, irmão mais velho de Napoleão, entrou em Nápoles comandando um Corpo da Armée franco-italiana (com soldados do norte da Itália, já dominado) que depois de derrotar as tropas de Bourbon (do anterior Rei de Nápoles, Ferdinand IV) em Campo Tenese, tomou posse de toda parte continental do Reino (excluindo-se a Fortaleza de Gaeta, a cidadela de Tronto e o extremo sul da Calábria, que continuaram resistindo ao assédio francês por muito tempo)." Daqui.
Em 26 de Julho de 1806, a cidade de Scandale respondeu negativamente ao pedido de provisões feitas pela Armée francesa comandada pelo general Reynier. Este último,  enviou a cavalaria e infantaria sob o general Berthier saquear a cidade. A cidade foi incendiada, segundo Reyner, pelos próprios scandaleses (essa prática era comum para evitar os saques e principalmente a alimentação dos soldados inimigos). No confronto que se seguiu, 25 scandaleses morreram e um número desconhecido de soldados franceses.

Joseph Bonaparte, o novo Rei de Nápoles, decretou o fim do feudalismo. A partir daí a família Gruther,  senhores de Scandale desde 1691,  perdeu todos os bens, surgindo a oportunidade da família Drammis comprar as terras, formando o seu primeiro latifúndio.
" .... a hipótese é que Drammis tenha comprado essas duas propriedades (Fota e San Leone-Galloppa) no início do séc. XIX por um preço vantajoso."  
Como teriam comprado essas terras ? 

Para comprar um latifúndio é necessário dinheiro, mas quem tinha dinheiro naquela época, além da nobreza não falida ?


1. Em primeiro lugar a burguesia, mercadores, comerciantes, artesãos refinados, banqueiros ... burguesia que mais e mais penetrava na zona rural, comprando terras de nobres empobrecidos.

2. Depois os burocratas monárquicos, altos funcionários que atendiam a nobreza.


3. Por mais incrível que possa parecer, alguns camponeses livres, assalariados, que recebiam o pagamento em dinheiro e vendiam o excedente de sua produção pessoal em feiras.


4. O texto que estamos explorando, diz que "A família Drammis descende do Coronel Salvatore Drammis", provavelmente ancestral de Nicola Drammis (1779-1830). A familia teria algum vínculo com a vida militar ? (A pesquisar).


5. Existiu uma outra possibilidade de enriquecimento de scandaleses no final do séc. XVIII. Numa sucessão sem fim de copia-cola, vários sites nos contam que ...

"Essendo il paese filoborbonico, nel 1799 gli scandalesi furono i  primi ad unirsi all'essercito della santafede del Cardinale Fabrizio Ruffo: dopo aver assaltato Crotone, molti lo seguirono fino a Napoli"
 ou então 
"nel periodo della spedizione del Cardinale Fabrizio Ruffo, nella primavera del 1799, gli scandalesi furono molto attivi sia nell'assedio di Crotone,che nella confisca dei beni dei cosidetti giacobini. A queste confische risale l'arricchimento di molte famiglie scandalesi".
Resumidamente, Napoleão Bonaparte invadiu a península itálica até o sul e empurrou o Rei de Nápoles, Ferdinand IV, para a Sícilia. Na Sicília, o Cardeal Fabrizio Ruffo, pró Ferdinand, organizou um exército, atravessou o Canal de Messina, foi arregimentando voluntários, em sua maioria camponeses, chegando a ter 25.000 homens. Invadiu, saqueou e retomou Crotone e começou uma bem sucedida reconquista de Nápoles. Tudo bem que durou pouco tempo, em 1806  Napoleão tinha tudo novamente dominado.

Esse, um resumo da história do Cardeal Fabrizio Ruffo e de como alguns scandelesi enriqueceram saqueando a Crotone francesa.

Enfim, o que será que faziam os Drammis antes de serem latifundiários ??

Concluindo, os primeiros Drammis chegaram à Calábria antes de 1743, provavelmente no séc. XVII, Pelas datas apresentadas, adquiriram as terras de Fota e San Leone, e o consequente  baronato, apenas no início do séc. XIX, provavelmente após 1806, algumas gerações depois de terem chegado. O comprador e primeiro Barão deve ter sido Nicola Drammis (marido de Domenica Orsini). Foram proprietários dessas terras por todo o séc. XIX.

Mas de onde teriam vindo ?? De que parte da Espanha ??  Não descobri, a pesquisar. Minha avó Luiza, tem um pé na Espanha pelo lado de sua mãe Agnesa e também pelo lado de seu pai Ernesto !!  :D

Fota pelo Google StreetView


Fontes:


Site do município de Scandale, aqui.

Site do Archivio Storico di Crotone, aqui e aqui





terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

OS OSSOS DO BARÃO SALVATORE DRAMMIS - Os originais

Carta manuscrita, com pequena árvore genealógica, recebida de Scandale por um dos irmãos Capozzi (provavelmente Mário) entre os anos de 1950 e 1960. O texto está em francês, com um pequeno bilhete no verso. Nas postagens seguintes apresentarei a tradução com comentários. Segundo boatos intercontinentais, essa cópia é rara, não tendo sobrevivido nem mesmo  na Itália ...

 O pesquisador scandalese Luigi Santoro afirma que esse documento é transcrição de parte do original em francês. Esse original foi escrito a pedido de Salvatore Drammis em 1864, e possuía duas partes, sendo uma delas a que está disponibilizada abaixo. O documento completo (em italiano) está publicado na Wikipedia.

Em 1943 dois netos de Antônio Drammis, filhos de Guglielmo (Antônio e Guglielmo) providenciaram a tradução da íntegra do documento para o italiano, foi essa tradução sobreviveu na Itália, o original em francês desapareceu, veja aqui.

Esse texto, datilografado e em italiano, também se encontra no site de Sérgio Capozzi, aqui.



Manderó in seguito al tuo nome il ricordino promesso, perche attualmente della Italia non se possono fare spedizione per l'America del Sud.

Vou enviar-lhe mais tarde  em teu nome a lembrança prometida, porque atualmente da Itália não se pode ir para a América do Sul.






terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

UM FEUDO CHAMADO SCANDALE


A família de Ernesto Capozza era  de Scandale (KR), Itália, na Calábria.


Scandale >> Santa Severina = 12,7 km.,
Scandale >> Fota = 4,9 km.,
Scandale >> Crotone = 21 km.


Parte do mapa (maravilhoso !!!), feito após a entrada de Joseph Bonaparte na Itália, da Coleção de David Rumsey. Vale a pena perder um tempo nesse mapa, fruto de um trabalho de 20 anos, realizado entre 1788 e 1812, são 31 pranchas que juntas compõe o Reino de Nápoles, desenhadas por Rizi Zannoni. É ótimo para identificar vilas e vilarejos que atualmente foram abandonados e desapareceram.

Scandale era um feudo. Andrea Caraffa ganhou, por serviços prestados, as terras de Santa Severina mais algumas terras vizinhas, entre elas as de Scandale e San Mauro. Em 1526, morreu sem deixar filhos. Seu sobrinho Galeotto Carafa herdou a propriedade.

Scandale foi fundada pelo conde Galeotto Carafa de Santa Severina, sobre uma colina popularmente conhecida como Gaudioso.

Era uma vila pequena, em 1561 viviam nesta comunidade 25 famílias de origem albanesa e uma de origem italiana. No início era conhecida pelo nome da colina, Gaudioso, mas no final do séc. XVI já passou a ser conhecida pelo nome atual, Scandale. 

Depois da morte de Galeotto Carafa, numa sucessão de leilões e arremates, a propriedade passou para Vicenzo Ruffo.

Posteriormente, os povoados de San Mauro e Scandale foram comprados por um nobre de Crotone, o Duque Carlo Sculco que em 1599 torna-se Senhor da cidade de Santa Severina. Em 1687, com a morte do Duque Domenico Sculco, as propriedades foram assumidas por Antônio Grutther.

É sob domínio de Antônio Grutther que algumas vilas se tornaram livres, coisa que  os senhores feudais tentavam evitar de todas as maneiras possíveis. Nesse período o número de feudos se multiplica, sempre sob o controle de poucos Senhores, por meio de leilões de compra e venda de terras. Nasceram, assim, novas baronias ligadas sobretudo a um fundo (terras), cuja compra dava o direito de titulação. Surgiram, também, nesse período, pequenos proprietários de terra, agricultores, arrendatários e colonos que cultivavam a terra arrendada do Senhor.

Foi nessa época que surgiu a prática da parceria (meação) ou agricultura por contrato,  onde uma pessoa proprietária de um fundo, terras (o concedente) e um camponês (o meeiro) decidem se unir para cultivarem juntos as terras e dividirem os lucros e os produtos da terra. Esse foi o sistema usado nas fazendas de café paulistas, para onde foram grande parte dos imigrantes italianos.

O proprietário disponibiliza a fazenda, ou seja, o terreno e as casas de colonos, enquanto o camponês (meeiro) oferece a experiência e o trabalho próprio e de sua família. Essa prática permitiu um lento desenvolvimento, sobretudo agrícola, da região, e a erradicação total do feudalismo. Essa prática continuou até os anos de 1950.

 Após o fim do feudalismo, decretado por Joseph  Bonaparte em 1806, quase todo o território em torno de Scandale passou para os Barões Drammis, proprietários da área ao longo do século XIX.

Em suma, o território de Santa Severina, junto com San Mauro e Scandale, pertenciam ao Ducado de Santa Severina. Abaixo uma tabela com os senhores feudais de Scandale, de acordo com documentos do Arquivo de Nápoles, (daqui):

Gaudioso - ano 1557 - Andrea Carafa
Gaudioso - ano 1616 - Giovanna Ruffo
Scandale -  ano 1616 - Giovanna Ruffo
Scandale -  ano 1654 - Carlo Sculco de Crotone
Scandale -  ano 1656 - Andrea Sculco
Scandale -  ano 1674 - Domenico Sculco
Scandale -  ano 1675 - Domenico Sculco
Scandale - ano 1691 - Antonio Grutther

Scandale, sem data, daqui

OS PRIMEIROS DRAMMIS EM SCANDALE

O pesquisador Luigi Santoro, diz que desde o séc. XVII  se encontra o sobrenome Drammis em Scandale.   "O primeiro documento oficial que fala de uma ou mais famílias Drammis ... é de 1743, onde além de um Salvatore Drammis ... aparece Domenico Drammis, sacerdote de 34 anos, que reside em uma casa própria de dois quartos com os irmãos Antônio e Niccolò." Daqui.

Somente no início do séc. XIX, a família Drammis adquiriu terras nas cercanias de Scandale, sobre isso falaremos em outro artigo.
"Após a unificação da Itália em 1861, o território de Scandale era propriedade e administrado pelos Barões Drammis, Zurlo e Bellingeri que davam as terras para o povo (camponeses) cultivar e recebiam o pagamento ou em dinheiro ou em colheita. Esse sistema terminou nos anos de 1950, quando o governo italiano iniciou um programa conhecido como "Opera Valorizzacione Sila" (reforma agrária). As terras presumivelmente pertencentes aos Barões foram confiscadas e dadas ao povo que pagou ao governo em pequenas parcelas durante 30 anos. Como resultado desse programa ... cresceu uma pequena vila, chamada Corazzo, onde vivem quase 150 famílias." Lincoln
A baronia Drammis em Scandale:

1806 - Nicola Drammis, provavelmente o primeiro Barão
1830 - faleceu Nicola. Viva Salvatore, filho de Nicola, o novo Barão
1884 - faleceu Salvatore. Viva Nicola, filho de Salvatore, o novo Barão
1899 - faleceu Nicola. Viva Antônio, irmão de Nicola, o novo Barão
1910 - faleceu Antônio. Viva Guglielmo, filho de Antônio e meio-irmão de Ernesto, o novo Barão

Você sabia que Scandale possuía um dialeto próprio ? Leia aqui, a dissertação de Lincoln.

Fontes:


Site do município de Scandale, aqui.

Site do Archivio Storico di Crotone, aqui e aqui



Wikipedia

LINCOLN, N. J. A phonological study of the dialect of Scandale. 1970. Tese de Doutorado. Simon Fraser University, online aqui.